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domingo, 17 de novembro de 2013

Maria Clara

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Não havia ainda completado um ano de vida quando a tragédia bateu à porta. Era uma viagem muito curta que não justificava levar o bebê. Sairiam logo cedo e, certamente, antes de escurecer já estariam de volta. Naquele dia, a mãe, professora da rede pública, não lecionaria, o que proporcionou acompanhar o marido numa breve viagem de negócios à serra gaúcha. Nos últimos tempos, com a chegada de Maria Clara e a correria costumeira de seu pai, pouco tempo tinham pra ficar juntos. Por isso, ela cedeu diante da insistência do marido em acompanhá-lo, e unir o útil ao agradável. Ele resolveria tudo na parte da manhã, e então poderiam almoçar juntos, aproveitar um pouco o friozinho da serra e voltar antes do sol se por. Assim fizeram, conforme o planejado. Mas na volta... a curva, o caminhão, a capotagem, a tragédia, e Maria Clara sem a mínima consciência da vida, perdeu de uma só vez os seus pais. Na manhã da viagem, ela foi entregue à avó. Ninguém esperava que fosse pra sempre, mas foi. Quem poderia imaginar que aquela seria a última vez que mamaria no peito de sua mãe, e que o beijo que recebera na bochecha rosada seria o selo da despedida de seu pai – um adeus pra nunca mais.

Quando começou a falar, às vezes falava vovó, mas na falta da mãe, por instinto trocou vovó por mamãe. Essa confusão que surgiu tão cedo na sua cabeça, acompanhou Maria Clara em toda a sua trajetória. Sem a figura do pai, e substituindo a mãe pela avó, tentou encontrar a sua identidade. Não havia dentro dela nenhum tipo de revolta pelo modo como a vida se apresentou, somente um vazio, a saudade de alguém que não conhecera.

Dona Débora era uma dessas pessoas que podemos chamar de especiais. A vida lhe imprimiu as marcas das perdas. Na adolescência perdeu a mãe, e foi morar com os tios quando o pai caiu no mundo e nunca mais deu notícias. Teve que aprender a cuidar de si mesma, já que a família que lhe abrira as portas não tinha muitos recursos. Casou-se ainda muito jovem, e precocemente ficou viúva com três crianças pequenas para criar. Não correu da luta, não se entregou à reclamação da má sorte, continuou vivendo. Buscou a dignidade para a sua casa. Os filhos cresceram e corresponderam à expectativa do sacrifício que fizera para que se tornassem alguém na vida. Por fim, perdeu a filha caçula, na flor da idade, e como um presente que pareceu recompensar a dor, recebeu Maria Clara para criar.

Talvez por saber o que é sofrer, amou a neta com todas as suas forças, e se desdobrou para supri-la em tudo. Achava que o destino tinha sido duro demais, e não ter a oportunidade de conhecer os pais já era sofrimento bastante. Por isso, queria proteger a neta de qualquer coisa que lhe ameaçasse. Sempre ofereceu o que tinha de melhor. Ainda que não quisesse deixar transparecer que o seu afeto era um esforço para amenizar o suposto sofrimento de Maria Clara, o seu comportamento excessivamente misericordioso em relação à neta não deixava dúvida. Estava sempre disposta a entendê-la, mesmo os deslizes mais grosseiros contavam com o olhar contemporizador da avó. Dona Débora nunca escondeu a verdadeira história, ainda que lhe tenha sido doloroso falar do acidente que vitimou os seus pais, ela superou a dor e não teve medo de contar a verdade.  Ela sempre se apresentou como avó, mas não disfarçava o prazer que sentia quando a neta lhe chamava de mãe.

Maria Clara desde cedo foi uma menina tranqüila, isso fazia parte da sua personalidade. Seu olhar transmitia tristeza, mas havia nela uma atraente doçura, principalmente na voz. Ainda muito pequena, quando começou a ser alfabetizada, já surpreendia a todos com frases e observações que não correspondiam à criança da sua idade. Certa feita, Dona Débora, irritada com o atraso da reforma da casa, desatou a reclamar com os pedreiros que tentavam explicar a razão da demora, a discussão foi esquentando em função da inflexibilidade da dona da casa. De repente, sua alma se quebrantou, quando a neta puxando-lhe pelo vestido, suavemente disse: – “Calma, mamãe, vai dar tudo certo. São apenas mais alguns dias e já acaba”. Ela teve que se segurar para não chorar, abaixou-se e deu um beijo na menina e concordou dizendo: – “É verdade, você tem razão, são mais alguns dias e já acaba”.

Não foram muitas as bonecas que teve. Não porque a avó não quisesse comprá-las. A verdade é que Maria Clara nunca se interessou muito por elas. Gostava mais dos livros, principalmente dos que tinham figuras que alimentavam a sua imaginação. Em cada uma delas uma viagem por um mundo de fantasia que criava facilmente e lhe proporcionava enorme prazer. Na adolescência sua alma mostrou-se ainda mais sensível. Colocar-se no lugar do outro era algo que fazia comumente. Detestava injustiças, mas tinha dificuldades de se levantar contra elas. Não conseguia entender como as pessoas podiam ser tão mesquinhas, como alguém podia passar sobre o outro e não respeitar o seu direito. Todavia, sem espírito de liderança, deprimia-se diante dos fatos que não aceitava, mas não via como mudá-los. Sua avó preocupava-se com a sua maturidade precoce. Queria tanto que a neta fosse como as meninas de sua idade, pois achava que a sua sensibilidade só poderia acarretar-lhe mais sofrimento.  

E a vida seguiu. Aplicada nos estudos, nunca deu trabalho para a avó. Sempre tranqüila, passou por todas as etapas escolares e ingressou na Faculdade de Pedagogia. Sem que ninguém dissesse nada, escolheu a profissão da mãe: sentia um prazer especial em trabalhar com crianças. Foi então, quando a vida parecia encaminhada, que Maria Clara conheceu Carlos. Oposto do seu temperamento, comunicativo, daquele tipo que está sempre pra cima, sempre feliz. Antes dele, ela nunca havia sequer pensado em ter alguém, mas descobriu nele algo que lhe faltava, e o envolvimento foi inevitável. Desde o começo, Dona Débora olhou para aquele relacionamento com desconfiança. Não queria que a neta sofresse, mas sabia que não poderia tê-la para sempre dentro de uma redoma protetora. Estava convencida de que Maria Clara precisava conhecer a vida – e realmente conheceu.

Não demorou muito para que o fogo da paixão queimasse o seu interior. Descobriu a dor: ciúmes e desconfiança, sentimentos até então desconhecidos, consumiam a sua alma. Carlos gostava da vida mais do que tudo, e nunca fez questão de esconder que esse era o seu jeito. Do seu modo, ele amava Maria Clara, mas jamais passou pela sua cabeça sacrificar a sua liberdade por ela. Assumir responsabilidades, definitivamente, não era com ele. Na sua ótica, a vida era uma festa, por isso vivia num estado permanente de celebração. Não era assim que ela pensava, sua vida era certinha, em tudo organizada – detestava o improviso. Se não fosse Carlos, sua trajetória seria totalmente previsível, era assim que gostava, dessa forma sentia-se protegida. Mas não foi do jeito que ela queria. De todas as formas, tentou arrancar a paixão que queimava no seu peito, buscou ser racional, certamente, era o melhor que poderia fazer. Mas na guerra da paixão contra a razão, a prudência perdeu feio. Entregou-se por inteira, pagou pra ver, arriscou-se num mergulho insano, pulou do despenhadeiro numa noite escura a fim de testar as suas asas.

O voo foi curto e, então, logo veio a queda. Reeditando o poeta, “foi eterno enquanto durou”. Além de um coração machucado, no juntar dos cacos, descobriu que estava grávida. Não disse nada. Percebeu que Carlos era escravo da sua própria liberdade, não usaria a gravidez para coagi-lo. Seguiu em frente, mesmo sem muita cabeça para os estudos, tocou o barco. Muita força pra remar contra a correnteza, mas aprendeu a ser forte e não se entregou. Não permitiu que ninguém ficasse com pena dela, não se fez de vítima, deixou que a mulher que estava lá dentro viesse pra fora. Estava no sétimo mês de gravidez quando se formou. Com um barrigão enorme, homenageou a avó na hora que recebeu o diploma – sentada na platéia, Dona Débora se desmanchou em lágrimas. 

Tiago chegou numa manhã de domingo. O céu estava totalmente azul, não havia nuvem alguma. Veio como um presente de Deus. O nome foi uma homenagem ao pai que ela não conhecera, e por isso fez questão de acrescentar “Neto” no final. Uma criança muda os ares de uma casa, e essa foi a grande missão de Tiago, realmente tudo mudou com a sua chegada. Depois de um tempo, Maria Clara até achou graça quando comparou as dores do seu relacionamento com Carlos com a alegria que o filho trouxe para a sua vida. A vida se reorganizou e pouco tempo depois do nascimento de Tiago, Maria Clara já estava lecionando na escola onde fora estagiária. Ainda que a jornada fosse dura, amava o que fazia. O filho ficava com a bisavó que, mesmo com a idade avançada, com prazer cuidava do “presentinho de Deus”, como ela gostava de chamar o bisneto.

Como era do seu feitio, a vida fluiu dentro da normalidade, bem ao seu gosto. Esse era o seu jeito, quanto mais previsível, melhor. Mas não foi assim, o destino havia preparado uma surpresa para ela.  E quando a alma se sentia segura, longe da dor, conheceu Fernando, irmão de uma colega de trabalho. Depois que Carlos saiu da sua vida, não permitiu que seu coração sonhasse mais, ela sabia o quanto aquela paixão lhe custara, não estava disposta a mais um voo sem asas. Mas aconteceu, tentou fugir, não conseguiu. Ainda que ele fosse tão diferente do pai do seu filho, o medo de um novo fracasso assaltou o seu interior. Gentil, com a paciência de quem ama, Fernando insistiu na idéia. Ele também vinha de um recente tropeço, acabara de se divorciar, mas viu em Maria Clara o que sempre procurou. Ainda que tudo fosse tão ressente, não teve dúvida de que o caminho era aquele, por isso não permitiu que a oportunidade escapasse. O tempo foi parceiro, o receio de um novo revés cedeu lugar à confiança e Maria Clara disse sim, sem medo de se arrepender. Foi num sábado de sol, com o céu carregado no azul, igual ao dia em que Tiago nasceu, que Maria Clara e Fernando se casaram, foi o “presentinho de Deus” quem levou as alianças. Dona Débora não conseguia se conter de tanta alegria, sentia-se recompensada pela felicidade da neta.

Tempos depois, num dia de semana, logo cedo, Maria Clara e Fernando passaram na casa de Dona Débora para deixar com ela o bisneto Tiago. Saíram em direção à serra gaúcha. Fernando tinha algumas coisas para resolver por lá, nada muito complicado que não pudesse ser solucionado pela manhã. Naquele dia, ela não lecionaria, e assim poderia acompanhar o marido na breve viagem. Aproveitariam para almoçar juntos e retornariam no final do dia. Assim fizeram, conforme o planejado. Foi um dia maravilhoso, o friozinho da serra num dia de sol. E na volta... bem... na volta eles passaram pela curva onde os pais de Maria Clara morreram e seguiram em frente.




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O Compadre Lobisomem

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Minha avó tinha histórias maravilhosas. Eu adorava me assentar aos seus pés e ouvi-la contar com rara habilidade as histórias que vivera. Algumas eram muito engraçadas, porém outras me deixavam arrepiado. Nunca duvidei da veracidade dos acontecimentos; pra mim, vovó sempre esteve acima de qualquer suspeita. Jamais passou pela minha cabeça que aquelas histórias contadas com tanto realismo, pudessem ser inventadas por ela. Hoje, Vó Alice já não está mais aqui pra defender suas narrativas, mas alguns episódios que me foram passados por ela, frequentemente voltam à minha memória, e eu me pergunto: “Será que isso realmente aconteceu?”

Segundo vovó, o episódio que vou relatar aconteceu na década de 1920. Fazia pouco tempo que ela se casara, e como a maioria da população da época, vivia com meu avô numa casinha simples e relativamente distante de um distrito municipal de uma cidadezinha do interior de Minas que francamente não lembro o nome. Meu avô, que infelizmente não conheci, era homem letrado e dava aulas na escola pública. Vovó ajudava no orçamento pegando algumas costuras pra fazer. Viviam bem, sem nenhum luxo, mas para os padrões da época, não dava pra reclamar. Nos finais de semana, reuniam-se com as outras famílias pra comer juntos, contar “causos”, e realizar serestas que entravam noite adentro. Vó Alice tocava violão muito bem, e era sempre requisitada nessas ocasiões.

Foi numa dessas noites de sábado pra domingo que a notícia chegou à roda de amigos. Segundo Dona Dinorá, uma senhora gorda e admirada por seus quitutes, já fazia três meses que nas noites de lua cheia um lobo enorme vinha atacando na região. A especulação girava em torno da possibilidade de ser mais do que um lobo, mas um lobisomem. Todos concordavam com o fato de não existir lobo naquela área, portanto, nesse caso, só poderia se tratar de alguém que se transformava em lobo sob os efeitos da lua cheia, uma verdadeira maldição. Alguns se benzeram diante da notícia, outros como meu avô, riram a valer, assegurando que somente gente ignorante é que poderia acreditar numa coisa daquelas.

Dona Dinorá falava com tanta convicção, que as mulheres logo se impressionaram com o relato. Sustentou que no sítio de sua irmã, que ficava a menos de três léguas, o bicho destruiu um galinheiro inteiro e o estrago só não foi maior porque o cunhado afugentou o tinhoso a tiros quando já estava dentro do quarto do filho pequeno pronto pra abocanhar a criança. Na volta pra casa, minha avó, na dúvida, perguntou ao vovô o que ele achava. Ele, por sua vez, se divertia com a história, afirmando que tudo não passava de crendice popular. Porém, ainda naquele mês, no tempo da lua cheia, a história ganhou força quando Seu Aristides, marido de Dona Cotinha, veio com a notícia de que o tal lobo havia aparecido nas suas terras e, além de atacar o galinheiro, matou o cachorro que cuidava da sua casa. Seu Aristides jurou ter visto o bicho, que arrancou a cabeça do cachorro à dentadas.

Nessas alturas, minha avó já estava apavorada, e como Seu Aristides gozava de credibilidade elevada, vovô começou a considerar o caso. Na sua cabeça, a possibilidade de ser um lobisomem não existia, mas, talvez, pudesse ser um animal perigoso, e ele, como homem da casa, teria que tomar as suas providências. Foi então que resolveu visitar o compadre Tenório. Ele e sua esposa viviam numa casa a menos de meia légua da casa dos meus avós. Eram amigos há muito tempo, o que fez com que escolhessem vovô e vovó como padrinhos do primeiro filho, nascido há menos de um ano.

– “Então o compadre também tá com medo do lobisomem?” Perguntou o compadre Tenório, dando risada e fazendo pouco caso da visita de meu avô.
– “Não é isso, compadre. O que eu quero propor para o amigo, é uma cooperação mútua. Nós moramos perto, se formos atacados por algum animal desconhecido que possamos nos ajudar”. Vovô argumentou meio sem jeito.
 – “Fica descansado, compadre. O tal lobisomem não vai aparecer”. Falou e riu exageradamente, debochando do zelo do Vô Hermínio. Chateado com a zombaria do amigo, vovô voltou para a casa, achando que realmente havia feito papel de tolo. Não se perdoava por ter se deixado envolver pelas conversas que se multiplicavam na região.

Mês seguinte, noite clara, e a lua cheia novamente aparece iluminando o céu. Depois do jantar, assentados na varandinha da casa, vovô e vovó conversam sobre amenidades. Gentilmente, vó Alice serve um chazinho pra ajudar na digestão. Noite tranquila. De repente, um som seco ecoa no ar.
– O que foi isso, Hermínio?
– Acho que foi um tiro, Alice!  – respondeu vovô, com ar de preocupação.

A localidade onde moravam era muito pacata, se realmente aquele som fosse de um tiro, era motivo suficiente pra se preocupar. Não tiveram dúvida de que o barulho viera da casa do compadre Tenório. Vovô se preparou para averiguar o que acontecera, não queria que minha avó fosse com ele. Ela, porém, recusou-se a ficar sozinha à espera de notícias. Em virtude da insistência da esposa, vovô concordou em levá-la. Preparou a charrete e saíram em direção à casa do vizinho compadre. Em poucos minutos lá estavam. O clima era de mistério: a luz amarelada do lampião iluminava precariamente a varanda, a porta da sala entreaberta sugeria uma interrogação.

Meus avós desceram da charrete e caminharam em direção à casa. Abriram a porta e entraram. Jogada no chão estava a espingarda que há pouco havia sido usada. Num canto da sala, em estado de choque, estava a comadre Maria, agarrada ao filho. Vovó insistia em querer saber o que havia acontecido naquele lugar, mas comadre Maria não conseguia dizer nada. Mais experiente, vovô procurou acalmá-la, servindo-lhe um pouco de água com açúcar. Depois de alguns minutos, recomposta, comadre Maria contou o terror pelo qual passara. Pegou no chão o resto da manta de lã que cobria o filho e que fora deixado pelo lobo quando a comadre disparou contra ele. Ao lado da porta ficou o buraco da bala que raspou a orelha da fera.

Intrigados, meus avós quiseram saber por onde andava o compadre Tenório. Comadre Maria não soube dizer, pensou que estivesse no galpão guardando algumas ferramentas. Não demorou muito, para que ele entrasse pela porta. Vovô foi logo dizendo:
– “Tenório! Por onde você andava? O lobo esteve aqui e quase pegou o seu filho!”

– “Você ainda não desistiu dessa tolice, Hermínio?” falou o compadre, às gargalhadas. Nos seus dentes era possível ver os fiapos de lã da manta do filho, e do ferimento na orelha esquerda o sangue pingava.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Benzinho, traz outra que já vai começar!

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Essa quem me contou foi o Tinho, que é casado com a Marisa, prima da minha esposa. Ele é um sujeito muito divertido. Representante comercial, o Tinho viaja muito pelo interior do Estado e acumula piadas e histórias engraçadíssimas, seu repertório é vastíssimo. Algumas histórias, ele jura que são verdadeiras. Bem, na verdade isso não interessa muito, o que conta é a diversão que elas proporcionam.

O Tinho me disse que tem um amigo muito cara-de-pau e que outro dia enforcou o trabalho na parte da tarde pra assistir um jogo da Copa dos Campeões da Europa. Para a surpresa da esposa, chegou em casa na hora do almoço, algo que não faz parte da sua rotina.

– Ué, você não me disse que vinha almoçar!
– Pois então, vim almoçar e ficar um pouquinho com você e as crianças. Faz tempo que a gente não fica junto.

Conhecendo o marido, a mulher logo desconfiou que tinha alguma coisa por trás daquela declaração de afeto.

– E você não vai voltar pro trabalho, não?
– Não, quero ficar com vocês.

Almoçaram e a mulher pegou no batente, e ele, tranquilamente, se esparramou no sofá pra tirar uma soneca. A esposa corria de um lado para o outro, cheia de coisas pra fazer. Enquanto lavava a louça do almoço, tinha que dar atenção aos três filhos pequenos que não paravam de brigar. Depois da cozinha arrumada, foi direto para a área de serviço colocar mais roupas pra lavar e passar aquelas que já estavam secas... e as crianças brigando. O mais velho se prevalecia do seu tamanho e batia no menor, esse por sua vez, vinha chorando pra mãe a fim de reclamar da injustiça. E ela se desdobrando para atender a demanda.

No meio daquela confusão toda, perto da hora do jogo, o marido acorda e, sem nenhuma sensibilidade, grita pra esposa:

– Benzinho, traz uma cervejinha que já vai começar!

A mulher no meio daquele “tiroteio”, complacentemente, vai à geladeira, pega uma latinha e leva para o marido. Ele com uma sede daquelas, quase que num gole, toma toda a cerveja. Mal acabara de pegar o ferro elétrico ouve outro grito do marido:

– Benzinho, traz outra que já vai começar!

Resignada, apóia o ferro sobre a tábua de passar e novamente vai à geladeira e pega outra cerveja para o marido. Ele pega a cerveja e nem mesmo agradece, seus olhos estão atentos querendo acompanhar a escalação dos times. A mulher volta para a sua tarefa, magoada com a falta de sensibilidade do esposo. As crianças continuam brigando, sua cabeça da voltas: choro de criança, calor, trabalho, incompreensão e... o marido grita mais uma vez:

– Benzinho, traz outra que já vai começar!

A mulher explode de raiva. Indignada, larga o ferro elétrico e vai até a sala e despeja em palavras a sua fúria:

– Paciência tem limite! Você não se manca, não? Eu cheia de coisas pra fazer e você além de não me ajudar ainda vem me dar mais trabalho. Quarta-feira e o “barão” belo e formoso em casa, matando serviço, assistindo futebol e querendo que eu lhe sirva de garçonete... Não quer uma porção de fritas, meu bem?!

Diante da indignação da esposa, o amigo do Tinho, com a maior cara-de-pau olha pra ela e diz:

– Não falei, não falei?! Já começou! Já começou!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

A Arte de Dissimular

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Quando criança, ele viveu uma experiência que o marcou para sempre.

A campainha da escola soou e a criançada saiu correndo para o recreio. Ele, sabendo que a fila da cantina sempre era grande, apressou o passo, buscando ser um dos primeiros. Se assim conseguisse, daria tempo de comprar o lanche e ainda jogar uma bolinha com os colegas. Entretanto, quando chegou, pelo menos umas cinqüenta crianças já estavam enfileiradas a sua frente na fila do caixa. “Fazer o que?” Pensou. Com paciência permaneceu esperando a sua vez, e quase que automaticamente colocou as duas moedas grandes na boca e ficou brincando com elas. Esse era um péssimo hábito, inúmeras vezes censurado pelos pais. Mas não tinha jeito, ainda que ele mesmo se envergonhasse da mania, não conseguia se livrar dela. A fila demorou a andar, e ele, distraído, se divertia com as moedas na boca. Até que, quando havia apenas dois colegas a sua frente, acabou engolindo uma das moedas. Além da dor e do susto, com um frio na barriga, lembrou-se que acabara de desinteirar o dinheiro e que não teria o suficiente para comprar o lanche. Sem graça, saiu da fila depois de esperar aquele tempo todo. O colega que estava atrás dele estranhou e perguntou:

– “Tá chegando a sua vez, não vai comprar o lanche, não?”

– “Perdi a fome, não estou mais com vontade de comer” – falou de modo convincente, sem que ninguém percebesse o verdadeiro motivo que o levara a desistir da fila.

Foi assim que aprendeu a dissimular, arte na qual se aperfeiçoou. Todas as vezes que era pressionado se safava não falando a verdade. Habilidosamente, sempre escondeu as verdadeiras razões, passando outras impressões. Para se salvar, manipulava a realidade, a fim de que pensassem o que ele queria.